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James Joyce por Jorge Luis Borges

21 Dec

Num só dia do homem estão os dias

do tempo, desde aquele inconcebível 

dia inicial do tempo, em que um terrível

Deus prefixou os dias e agonias

até o outro em que o rio ubíquo

do tempo secular torne à nascente,

que é o Eterno, e se apague no presente,

no futuro, no ontem, no que ora possuo.

Entre a aurora e a noite está a história

universal. E vejo desde o breu, 

junto a meus pés, os caminhos do hebreu,

Cartago aniquilada, Inferno e Glória.

Dai-me, Senhor, coragem e alegria

para escalar o cume deste dia.

 

(Cambridge, 1968)

 

Fonte: Poesia, de Jorge Luis Borges. Editora Companhia das Letras, 2009. Tradução de Josely Vianna Baptista.

 

Joyce, sem dúvida, um dos meus autores favoritos. Um homem extremamente criativo que teve a coragem de ousar e se tornar único na Literatura. Viveu na pobreza, mas eu imagino que com um mundo interior tão farto isso não lhe foi um fardo!

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Antonius

14 Nov

Antonius, por que me persegue?

Não já te virei o rosto?!

E, mesmo assim, você insiste em vão me procurar…

Te humilho e você retorna mais adorável do que nunca

Assim não me livrarei de você… A piedade me impede

Será?

Ou eu não consigo admitir a verdade…

Antonius..

Saia daqui

Não me olhe assim

Por favor, não me olhe assim

Venha, vou te por na cama e em meu seio você irá dormir

Mas só até amanhã Antonius, só até o nascer do velho sol e nada mais…

O Homem que Contempla

17 Oct

Vejo que as tempestades vêm aí
pelas árvores que, à medida que os dias se tomam mornos,
batem nas minhas janelas assustadas
e ouço as distâncias dizerem coisas
que não sei suportar sem um amigo,
que não posso amar sem uma irmã.

E a tempestade rodopia, e transforma tudo,
atravessa a floresta e o tempo
e tudo parece sem idade:
a paisagem, como um verso do saltério,
é pujança, ardor, eternidade.

Que pequeno é aquilo contra que lutamos,
como é imenso, o que contra nós luta;
se nos deixássemos, como fazem as coisas,
assaltar assim pela grande tempestade, —
chegaríamos longe e seríamos anónimos.

Triunfamos sobre o que é Pequeno
e o próprio êxito torna-nos pequenos.
Nem o Eterno nem o Extraordinário
serão derrotados por nós.
Este é o anjo que aparecia
aos lutadores do Antigo Testamento:
quando os nervos dos seus adversários
na luta ficavam tensos e como metal,
sentia-os ele debaixo dos seus dedos
como cordas tocando profundas melodias.

Aquele que venceu este anjo
que tantas vezes renunciou à luta.
esse caminha erecto, justificado,
e sai grande daquela dura mão
que, como se o esculpisse, se estreitou à sua volta.
Os triunfos já não o tentam.
O seu crescimento é: ser o profundamente vencido
por algo cada vez maior.

Rainer Maria Rilke, in “O Livro das Imagens”
Tradução de Maria João Costa Pereira

 

Embriagai-vos: embriagai-vos sem cessar!

19 Jun

É preciso estar sempre embriagado. Eis aí tudo: é a única questão. Para não sentirdes o horrível fardo do Tempo que rompe os vossos ombros e vos inclina para o chão, é preciso embriagar-vos sem trégua.

Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa maneira. Mas embriagai-vos.

E se, alguma vez, nos degraus de um palácio, sobre a grama verde de um precipício, na solidão morna do vosso quarto, vós acordardes, a embriaguez já diminuída ou desaparecida, perguntai ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo que foge, a tudo que geme, a tudo que anda, a tudo que canta, a tudo que fala, perguntai que horas são; e o vento, a onda, a estrela, o pássaro, o relógio, responder-vos-ão: ‘É hora de embriagar-vos! Para não serdes os escravos martirizados do Tempo, embriagai-vos: embriagai-vos sem cessar!

De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa maneira’.

Charles Baudelaire