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Orhan Pamuk, quando fomos apresentados?

10 Nov

Desânimo, correria e afins me afastaram deste espaço nos últimos dias. Mas tanta coisa li e vi que gostaria de compartilhar… Vamos começar pelo livro “Neve”, de Orhan Pamuk (já há um tempo devia isso). Escritor turco sensacional, digo porque, além do talento, a maturidade proporcionou uma sensibilidade e percepção incríveis. Sabe aqueles pensamentos ou desejos que temos vergonha? Que tentamos esconder de nós mesmos no momento em que eles chegam à mente? Pois bem, ele descreve com muita facilidade! E você imagina (eu tive essa impressão) que Pamuk já esteve na sua cabeça ou nos seus sonhos.

É.... esse homem me assustou...

O livro tem umas sacadas sobre religião que, às vezes, nos parece sem sentido porque não vivemos mais em uma cultura altamente religiosa. Por exemplo, o simples fato de questionar Deus é uma grande dor para alguns personagens. Saber se alguém é ateu ou não é outra coisa super importante, até determinante de um relacionamento ou não. E tem, é claro, a questão “véu”.  Mulheres, supostamente, se matam (e matam!) pelo direito de seguir a lei religiosa e esconder os cabelos. Contudo, aos poucos o livro revela mais motivações para os sucídios de jovens em um vilarejo onde o poeta Ka vive todo o seu drama.

A política também é bem tratada no livro. O leitor pode ter uma ideia, mais ou menos, de como é viver em uma democracia influenciada pela religião, o temor de uma guerra a qualquer instante, as brigas com os vizinhos, o ódio de alguns as influências europeias e outros desejando (talvez secretamente) ter nascido no velho continente. Pude ver melhor também a situação dos curdos – o maior povo sem território atualmente, de acordo com alguns estudiosos – o preconceito sofrido por eles, a falta de uma espécie de “lar”, as lutas, desesperos…

Enfim, um livro completo: emoções, ideias, poesia, religião, política, as dificeis relações amorosas…

“Depois que Ka e Ïpek fizeram amor, ficaram na cama
abraçados; por algum tempo, nenhum dos dois se mexeu. O mundo estava
envolto em silêncio.

A felicidade de Ka era tão grande que o abraço parecia durar um tempo
muito longo. Só isso pode explicar por que ele foi tomado de súbita
impaciência e pulou da cama para ir olhar pela janela. Mais tarde, iria
considerar aquele demorado momento de silêncio compartilhado como sua
mais feliz recordação e se perguntaria por que interrompera tão
bruscamente aquela felicidade inigualável, saindo dos braços de Ipek. A
resposta é que ele se deixou dominar pelo pânico. Era como se alguma
coisa estivesse prestes a acontecer do outro lado da janela, na rua
coberta de neve, e ele precisasse estar lá antes que acontecesse”.

“Oh, um escritor devia ser capaz de falar sobre tudo o que é
importante”, disse Necip teimosamente. “Se eu fosse um escritor, iria
querer falar sobre todas as coisas sobre as quais as pessoas não falam”.

“Agora vou lhe dizer o que você estava pensando vinte anos atrás.”