Khalil Gibran, um poeta libanês

5 Sep

O Amor

E alguém disse:
Fala-nos do Amor:

– Quando o amor vos fizer sinal, segui-o;
ainda que os seus caminhos sejam duros e difíceis.
E quando as suas asas vos envolverem, entregai-vos;
ainda que a espada escondida na sua plumagem
vos possa ferir.

E quando vos falar, acreditai nele;
apesar de a sua voz
poder quebrar os vossos sonhos
como o vento norte ao sacudir os jardins.

Porque assim como o vosso amor
vos engrandece, também deve crucificar-vos
E assim como se eleva à vossa altura
e acaricia os ramos mais frágeis
que tremem ao sol,
também penetrará até às raízes
sacudindo o seu apego à terra.

Como braçadas de trigo vos leva.
Malha-vos até ficardes nus.
Passa-vos pelo crivo
para vos livrar do joio.
Mói-vos até à brancura.
Amassa-vos até ficardes maleáveis.

Então entrega-vos ao seu fogo,
para poderdes ser
o pão sagrado no festim de Deus.

Tudo isto vos fará o amor,
para poderdes conhecer os segredos
do vosso coração,
e por este conhecimento vos tornardes
o coração da Vida.

Mas, se no vosso medo,
buscais apenas a paz do amor,
o prazer do amor,
então mais vale cobrir a nudez
e sair do campo do amor,
a caminho do mundo sem estações,
onde podereis rir,
mas nunca todos os vossos risos,
e chorar,
mas nunca todas as vossas lágrimas.

O amor só dá de si mesmo,
e só recebe de si mesmo.

O amor não possui
nem quer ser possuído.

Porque o amor basta ao amor.

E não penseis
que podeis guiar o curso do amor;
porque o amor, se vos escolher,
marcará ele o vosso curso.

O amor não tem outro desejo
senão consumar-se.

Mas se amarem e tiverem desejos,
deverão se estes:
Fundir-se e ser um regato corrente
a cantar a sua melodia à noite.

Conhecer a dor da excessiva ternura.
Ser ferido pela própria inteligência do amor,
e sangrar de bom grado e alegremente.

Acordar de manhã com o coração cheio
e agradecer outro dia de amor.

Descansar ao meio dia
e meditar no êxtase do amor.

Voltar a casa ao crepúsculo
e adormecer tendo no coração
uma prece pelo bem amado,
e na boca, um canto de louvor.

 

Khalil Gibran

Moya Lyubov – Meu amor

21 Oct

Pra quem gosta de animação e dos Impressionistas não pode deixar de assistir o curta “Meu Amor”, do diretor russo Aleksandr Petrov.

Descobri o filme por acaso e me apaixonei pela técnica e sensibilidade. Petrov pintou todas as cenas com os dedos e levou três anos para terminar o curta que narra a história de um adolescente descobrindo o amor, confuso entre a menina da mesma idade, inocente como ele, e uma mulher mais velha, acostumada a muitos amantes.

Impossível não fazer um paralelo com a vulgaridade que domina a maioria das relações entre os adolescente hoje.

Um filme lindo, romântico e suave.

 

 

Morangos Silvestres

15 Oct

“A vida é uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, significando nada”, Macbeth, Shakespeare.

Caminhava outro dia sozinha por uma ruazinha velha quando me deparei com um antigo galpão onde há alguns anos fui em showzinho rock’n’rrroll. “Haaa! Curti muito ali!” e logo me deixei levar por um riacho de lembranças que rápido se tornou um mar, cada passo que dava notava outro detalhe do passado e outro em todos os lugares por onde passava naquela noite. Me senti um pouco como o professor Isak Borg de Morangos Silvevestres – maravilhoso filme de Ingmar Bergman – bem pouco, é claro, já que tenho muito menos acontecimentos para rememorar do que ele. Mas senti.

Lembrei, por exemplo, do temor e fúria que era a minha vida na época da faculdade, quanta energia gasta pra nada! Ou melhor, muito barulho por nada! Um temor desmedido do futuro acompanhado por brigas desnecessárias, rusgas sem sentido. Então, será que é isso envelhecer? Perceber as tolices e não repeti-las?

Isak sabe que está velho. A morte começa a visitá-lo em sonhos, ele se assusta. Porém segue. Seus hábitos são rígidos, sua rotina controlada, ideias já bem sedimentadas. Todavia, enquanto anda pelas cidadezinhas da infância, conhece gente nova, reencontra a mãe, algo vai mudando… Perdoa o antes imperdoável, abriga a jovem nora nunca aceita antes e se permite flertar, sim, – paquerar! – com a senhorinha que há anos cuida de sua casa ( e dele é claro). Enfim, lindo.

 

 

Bem, compartilho o filme sobre o homem que, ao viajar para receber um prêmio, revive, renasce a partir de toda uma vida guardada em suas memórias. Aproveitem.

As consolações da Filosofia

11 Oct

A Filosofia sempre me atraiu e continua a exercer influência na minha vida prática, isso mesmo, muito mais que teoria as ideias de alguns filósofos são ensinamentos pra mim. Assim, outro dia comprei o livro “As Consolações da Filosofia”, do filósofo suíço Alain de Botton, e encontrei preciosidades. O livro traz ideias de Sócrates, Epicuro, Sêneca, Montaigne, Schopenhauer e Nietzsche adaptadas aos problemas comuns do amor ao sofrimento, popularidade e falta de dinheiro. No capítulo sobre Sêneca, por exemplo, a sabedoria do filósofo lembra que as dificuldades são inerentes a existência e nada podemos fazer para nos livrar da ocorrência de situações desagradáveis. Por isso, aceitar o sofrimento não é receber com passividade a dor e sim saber que aceitá-la  é necessário, ao invés de desperdiçar energia lutando contra o impossível.

Uma ideia que nunca esqueci está na história do filósofo estoico Zenão de Cício, fundador do Estoicismo:

“Ao ser avisado sobre um naufrágio e ser alertado para o fato de que sua bagagem havia afundado, Zenão comentou: “A Fortuna me desafia a ser um filósofo menos sobrecarregado”.”

Ah! Genial! Imagina seu prédio pega fogo e você perde todas as suas coisas, daí chega em casa e diz “ah fui desafiado a viver com menos”! Sim, porque os estoicos vivam com muito pouco e carregavam tudo consigo. Logo, todos os seus pertences foram por água abaixo.

Incrível, eu não conseguiria. Por outro lado, admiro profundamente a atitude, reflexo de uma sabedoria invejável.

Se nada temos, se nada nos pertence de verdade, por que a preocupação?

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Embora criticado por alguns estudiosos de simplificar ideias complexas, o livro não é auto-ajuda. Não dita comportamentos ou ideias ao leitor para “melhorar”, “vencer” isso ou aquilo, não se trata disso.  De Botton apresenta apenas alguns pontos de raciocínios complexos e se vai ajudar ou não o leitor já é uma outra história. Talvez, no mínimo, consolá-lo e com certeza despertar o interesse em conhecer melhor o pensamento de grandes mestres.

Lição do mestre Bukowski

30 Sep

Por que escrever? Por queeeê?

Talvez outros jovens escritores sejam perturbados como eu por um desejo incontrolável de escrever. Acossados por uma compulsão em narrar fantasias malucas de suas cacholas e mesmo que digam ” não vou fazer mais isso” lá se vão duas, quatro, cinco páginas digitadas e isso é só o começo!

 

Eu tinha dito que não escreveria mais nesse blog e aí me deparei com os ensinamentos de um mestre. Afinal, estava explodindo em mim!

Então você quer ser um escritor?
Charles Bukowski

Tradução: Dito pelo maldito – www.laparola.com.br
Se não estiver explodindo em você. apesar de tudo, não escreva.
A não ser que saia espontâneo e sem permissão do seu coração, da sua mente, e da sua boca, e suas entranhas. Não escreva.
Se você tem que se sentar por horas encarando a a tela do compu…tador ou debruçado sobre o sua máquina de escrever procurando as palavras. Não escreva.
Se você estiver fazendo isso por dinheiro ou fama, não escreva.
Se você estiver fazendo isso porque quer mulheres em sua cama, não escreva.
Se você tem que sentar lá e reescrever de novo e de novo, não escreva.
Se der o maior trabalho só de pensar em fazer, não escreva.
Se você estiver tentando escrever como outra pessoa, desista.
Se você tiver que esperar até isso rugir dentro de você, então espere pacientemente.
Se esse rugido nunca sair, faça outra coisa.
Se você tiver que ler primeiro para sua esposa, ou para sua namorada ou seu namorado, ou para seus pais ou a quem quer que seja, você não está pronto.
Não seja como tantos escritores, não seja como tantos milhares de pessoas que se dizem escritores, não seja chato, estúpido e pretensioso, não se deixe consumir pela vaidade.
As bibliotecas do mundo bocejam até dormir sobre tipos assim. Não aumente isso. Não escreva.
A não ser que saia da sua alma como um foguete, a não ser que isso faça-o
levar à loucura ou suicídio, ou assassinato, não escreva.
A não ser que o Sol dentro de você esteja queimando suas vísceras, não escreva.
Quando for realmente o momento, e se você for escolhido,
ele irá fazê-lo por conta própria e continuará acontecendo até você morrer, ou isso morrer em você.
Não há outro jeito.
E nunca houve outro

O Poder de Persuasão da Arte

19 Jun

“A Arte não serve pra nada, não tem utilidade”.

Nunca esqueci a frase que ouvi há tantos anos, me provocou na hora, abalou a minha fé em algo místico e extremamente valioso do meu ponto de vista desde a infância. Entretanto, passado o choque, toda a ideia de inutilidade só serviu para solidificar ainda mais a minha convicção no poder, nos usos e não usos da Arte.

https://www.youtube.com/watch?v=QninA_6QZPA

Fabuloso Chaplin

14 Mar

Outro dia ouvi um diálogo ótimo em um filme mais ou menos assim:

– Eu quero ajudar pessoas, quero ser um tipo de missionário.

– Você é comediante. Conte uma piada para as pessoas!

Uma vez um amigo me disse: “O trabalho é a forma de ajudarmos os outros neste mundo”. Nunca tinha pensado dessa forma antes dele.

A Fonte das Mulheres

18 Feb

Assistir filmes sobre a vida de mulheres em qualquer país do Oriente Médio – ou majoritariamente mulçumano – me faz achar ridículas algumas reclamações feitas deste lado do mundo por nós. “A Fonte das Mulheres” é um filme de 2011 rodado no Marrocos que me fez refletir e rir bastante.

Ele conta a história dos moradores de uma aldeia pobre cujo o abastecimento de água vem de uma fonte afastada. As mulheres são as responsáveis por buscar a água, mas o esforço da caminhada já provocou abortos em quase todas. Ao pedir ajuda aos homens e estes recusarem por uma questão de tradição, elas fazem greve de sexo – o único poder sobre eles.

Elas vivem em um contexto inimaginável. Afinal ser presa por seu marido em casa e isso ser uma atitude socialmente aceita, e não um crime de cárcere privado, não é algo que você espera por aqui.

Em uma cena, um senhor adverte ao professor da escola local para não chamar mais as meninas, para não fazer questão da presença delas. Pois, o que aconteceria se elas gostassem? Se fossem para a cidade continuar os estudos e voltassem grávidas? E quem ia fazer o serviço doméstico?

Isso é o pior, é a raíz de tudo. Mantidas como analfabetas, são procriadoras e empregadas, sempre consideradas estúpidas e inferiores. Menos para poucos como o professor da escola, marido de uma das heroínas.

Ah e a velha Fuzil, quanta sabedoria!

Enfim, super recomendo e aqui vai o link para assistir o filme dublado no youtube.

A Arte de Rafael Silveira

22 Jan

No final do ano passado, tive a oportunidade de conhecer o trabalho de um jovem artista plástico do Paraná – Rafael Silveira. Minha identificação com a obra dele foi instantânea. São imagens que mesclam um quê rock’n’roll, bizarro e sombrio, mas com colorido e um toque de humor. Ele expôs na galeria Choque Cultural, em São Paulo, no final do ano.

Quem quiser conhecer um pouco mais sobre o rapaz e só clicar aqui.

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Cambaleando por uma estradinha torta

21 Jan

Às vezes, a gente anda por caminhos tão tortos e tortuosos que é inevitável a pergunta: até quando vou perambular por aqui?

Pior ainda quando eles são atraentes, mas tão atraentes que você se arrebenta na primeira esquina, sai da estrada, reflete, no entanto, quer voltar para a velha estrada tão logo possa levantar e andar.

Então, cambaleando, você volta.

Sabe que vai quebrar os dentes na primeira lombada mais a frente, vai sofrer. Mas sair da estradinha é tão difícil.. ela é tão.. deliciosa.

Tem um sabor fermentado nos prazeres mais básicos.

Não adianta gritar, você está preso. Dá voltas sobre um círculo. E tantas, tantas mãos jogando com o seu corpo, esmagando sua mente e você roda,roda,roda……

Como sair, meus amigos, como sair?

Me conte você que nunca esteve preso a nada.

Me conte! Eu estou esperando.